Você não nasce pensando que tem algo de errado com você, mas
você cresce ouvindo isso. Não sei se minha memória me engana, lembro que tudo
parecia mais fácil na primeira infância. Não lembro de haver distinções nessa
época, eu brincava com os meninos, não tinha medo nem vergonha deles. Não
pensava que tinha que agradar alguém ou ser reconhecida por qualquer coisa. Eu
não me achava feia nem esquisita. Aí comecei a ouvir por aí, em todo lugar, que
eu era diferente, gorda, desagradável para os garotos (sim, porque não
acredita a aprovação dos meninos era a melhor coisa na vida de uma menina).
No começo, é difícil acreditar. Mas aí você vai percebendo
que existem alguns que são mais bem tratados que os outros. Que existem as
garotas bonitas, populares e existe você, que não é nada disso. Até que chega
uma hora que você aceita que é diferente, que é menos que os outros. E quanto
mais você acredita, mais estranha, feia e sem brilho você se torna.
